BRT, Teatro Ambulante


A mão que segurava a barra de metal era a mesma que havia segurado a vassoura durante todo o dia. Às costas uma gota de suor escorria, mas não era o seu. Incrível o balé que os corpos juntos faziam a cada momento, mãos fortes, braços maltrados de tanto se sustentar. Um ronco. Os afortunados dos assentos, indiferentes à dança orquestrada pelas curvas e freadas, não tinham culpa. Tinham sorte. Porém uma coisa unia a todos: o calor. Abafado, úmido e virulento. Janelas não havia. Pelo chão, receptivos, pequenos artrópodes se aproveitam dos farelos, que ninguém os vejam! É que ali se vendem alimentos. Em pé uma moça dos tempos do Chacrinha já não achava graça de ser chacrete. Os pés doíam, o braço fraquejava e a plateia já estava aconchegada. Um choro de bebê. Um espirro. Quem muda de lugar pisa no pé do outro, falta luz. No mais, cansaço, lentidão, e palhaços. 

(Deyvid Peres)

O Não-Eu


Olho os outros passarinhos por aí e penso: serei eu um passarinho mesmo? Todos que vejo, lindos, alegres, coloridos, habilidosos em capturar o alimento, e eu.... Bem, eu mal sobrevivo. Outro dia quase consegui pegar um verme num lago raso, mas meu bico ficou preso na lama. Fui salvo por uma garça que me olhava com cara de dó. Tentei comer insetos, mas confundi um delicioso gafanhoto com um louva-deus, que me deu um soco no olho. Cai humilhado no chão bem ao lado de uma árvore cheia de maritacas. Até hoje elas zombam de mim quando me veem rindo tanto que os outros pássaros até tampam os ouvidos por causa dos gritos estridentes. Resolvi então que só comeria frutas, conheci outros frugívoros, me apaixonei. Olha, as frutas eram ótimas, não reclamo, mas não era o suficiente. O namoro não durou muito, a minha melhor qualidade ali, pelo visto, era comer frutos. Hoje, apesar de ser um pouco pequeno, trabalho como "pombo-correio", preciso pegar pelo alimento que não consigo pegar sozinho, certo? Todos os dias o vasilhame é enchido por uma criatura sem penas, coberta com algodão. Às vezes ela vem diferente, em outras cores e outros formatos, mas sempre vem e me paga. Talvez os ninhos bem feitos, nas árvores mais disputadas, não sejam para mim. Talvez eu não seja um pássaro de verdade, talvez eu tenha nascido na espécie errada. Certa manhã me peguei pensando que se eu tivesse nascido uma toupeira, eu teria um par, e uma toca, e filhos. As toupeiras enxergam pouco e vivem bem. O amor certamente me acharia lá. Mas o jeito é viver aqui, e ser o melhor pássaro que eu puder ser. Por enquanto, sigo entregando cartas de amor.

(Deyvid Peres)

Palavras ao Vento



"Nenhum homem é uma ilha". A vida ainda é essa coisa infinita de interação afetiva-comportamental de ordem mútua. Impossível seria viver só para si num mundo cheio de pessoas. Vivemos por nós e vivemos com os outros. Vivemos pela empatia, pelo altruísmo, e por toda ligação terrena e não-terrena que experimentamos com todos os seres desse planeta. Viver bem, mais do que em outra era, é ter 'tato social' - aquela sensibilidade de saber o que dizer e quando dizer, e principalmente quando não dizer. E quando dito o que não deveria ter sido propagado ao ar, pedir desculpas, assumir o erro, e aprender um pouco que que seja com isso. É a evolução psicoemocional guindo-nos ao um mundo melhor. Para isso é preciso ouvir a si mesmo, é preciso uma pausa para entender o que se passa dentro de cada coração. É preciso sentir as vibrações mínimas de energia receptiva ou não às nossas ações. Não é fácil. A cada erro podemos perder amizades, amores, confiança de quem amamos. Sejamos então a tentativa de acerto, sejamos então a tentativa de amor.

(Deyvid Peres)

Ego Rosáceo


Certa feita uma rosa acordou e percebeu que lhe faltava uma pétala. Horrorizada começou a procurá-la por toda parte, mas o vento já havia levado. Chorou de tristeza, se revoltou com a vida e com tudo. Sem aquela pétala não se reconhecia, não se fazia ela mesma. Culpou-se por ter dormido e, assim, deixado que o vento lhe roubasse tão preciosa pétala. Brigou consigo mesma por não cuidar melhor de seu corpo, de sua saúde. Esbravejava contra a vida e todos que se aproximavam dela. Parou de conversar, parou de sorrir. Que dor era perder uma pétala. Numa dada manhã, resolveu mudar, seria otimista, sorriria para os insetos e pássaros que a visitariam dali por diante, seria gentil com as flores da vizinhança. Mas nenhum pássaro veio, nenhum inseto colheu seu pólen, nenhuma flor amiga havia por perto. Numa poça de chuva ao chão, olhou horrorizada a imagem que refletia. Ficou tanto tempo lamentando a perda daquela única pétala que não percebeu o tempo passar, e agora não possuía mais nenhuma.

(Deyvid Peres)

Queres Mesmo?


Queres-me para ti? Subverte-me ao frescor dos novos mundos, dos vales coloridos inexplorados, dos corpos em evolução, da fumaça vil, das frutas recém-colhidas. Tira-me do meu mundo, permite que eu viva o personagem que quiser inventar para ti, e não me julgues por minha leviandade. Mostra-me outras trilhas, novas vistas, e diferentes escolhas. Ilude-me sobre as coisas vãs, sobre o que parece pouco, sobre o que passa despercebido. Traz para mim a grandeza do teu olhar, a suavidade do teu toque, e os sorrisos mais doces. Alimenta-me com o que tens de melhor, dá-me abrigo para o frio, abana-me aos 40 graus. Ou faz o contrário, joga-me ao lago congelado no inverno, leva-me à praia ao verão. Prepara um filme para distrair-me quando estiver chovendo as tristezas infundadas, loucas e desconjuntadas, e abraça-me quando em silêncio eu gritar. Queres-me para ti? Vive a vida dos revolucionários, vive de amor. Faz-me seu amor. 


(Deyvid Peres) 



Naqueles Dias


Naqueles dias que nada faz sentido (e não são poucos), naqueles dias que não consigo estabelecer sequer uma linha de raciocínio que me leve a algum lugar, naqueles dias que já não me reconheço; Eu paro, sento ao chão, e olho pras estrelas. Nada mais precisa de sentido diante da complexidade do universo.


(Deyvid Peres)


Poema Sem Métrica



Nessas estradas vale a garra

Haveremos de aprender na marra

Os atalhos do caminho

Tentamos cruzar a ponte de arco-íris

Mas esquecemos que ela é feita de luz

E como bobos achamos 

Que existem caminhos outros 

Que a não trajetória do vale

Para alguns, nuvens espessas de lágrima

Os sustentam aquém

Para outros, jaulas de tortura e fogo os mantêm

Estagnados na masmorra

Mas para aqueles que têm a coragem de seguir

Para aqueles que matam os dragões à esgrima

Para aqueles que dão o corpo pra bater

Para aqueles que descobrem a doçura de ser o que é

Para esses, um unicórnio alado os leva

Os lava

Os despe

E os pousa nus, no topo da montanha

Bem no centro do vale




(Deyvid Peres)