Relações Mórbidas



Ultrapassamos na última década as fronteiras do mundo novo. Um mundo digital tão atrelado à nossa vida que já não conseguimos nos ver sem ele. A internet, à mão através dos aparelhos portáteis - e porque não - apêndices tecnológicos de nossos corpos, está a modificar nossas mentes e nosso modo de pensar de forma ligeira e integral. Eu mesmo criei o péssimo hábito de não ir dormir sem dar aquela conferida nas redes sociais, e retornar a elas assim que abro os olhos. Mas o problema não seria tão sério se não nos permitíssemos criar uma personalidade ímpar online. Comecei a reparar isso nesses últimos tempos com a enxurrada de convites de amizade que tenho recebido ultimamente. Criamos um elo com essas pessoas, curtimos suas fotos e postagens, conversarmos no privado, respondemos às "histórias", e (olha que engraçado) quando nos vimos na rua nem damos um oi, no máximo um olhar de reconhecimento tímido. Somos extrovertidos, interessantes e interessados online e offline perdemos o brilho. Acovardamo-nos. Falta-nos prática. É como aquele leitor de língua inglesa que é capaz de acompanhar o Diário de Anne Frank em inglês, e até assistir a todos os episódios de Grey's Anatomy sem legenda, mas não consegue dar uma informação ao gringo quando é parado na rua, simplesmente porque não sai. Falta-lhe a prática. Tornamo-nos aquele atleta que joga a lança sempre com o lado direito, e o resultado de tanto exercício unilateral é um braço bem mais desenvolvido que o outro.

(Deyvid Peres)

Saldo



Sou um
Eramos dois
Sou um
Sou um 
Sou um

Eramos um e meio
Tira meio
Tira meio 
Tira meio
Sou um

Sou um
Sou zero
Sou zero
Sou zero
Sou menos um

Sou menos um
Sou zero
Sou um
Somos dois
Somos dois
Somos? 
Sou


(Deyvid Peres)

Victor Heringer


Morre escritor, ganhador de prêmios, inteligência acentuada para o seu talento. 29 anos. Ex-aluno da UFRJ. Essa notícia, surpreendente, apesar de não ter sido amplamente divulgada nos meios de imprensa, vem chegando a mim a cada momento nas zonas mais inesperadas do mundo digital. Ele havia acumulado amigos e admiradores por onde passara, e os depoimentos póstumos estavam ocupando os lugares na parede de homenagens à vida. Mas o que eu estava fazendo ali no mesmo ambiente que tal parede, lendo, absorvendo, e entristecendo-me com cada palavra? Por que eu, biólogo e professor, estaria numa sala de poemas, de resenhas, de elucidações literárias, de conversas tão fora do meu entendimento quanto absurdas ao meu cotidiano? Dois dias de marteladas, cada prego um depoimento nessa parede que eu percorria todos os dias há anos sem saber. Em paralelo, eu secretamente seguia com minhas crônicas tortas, bobas, e cheias da arrogância dos amadores, com meus capítulos esporádicos, e minhas frases soltas sem efeito. Escritos por um celular mediano de tela quebrada, é a falta do computador. Um menino de minha idade e escritor morrera. Longe eu de me achar um escritor, não o sou. Eu que troco 's' por 'x', e faço erros de sintaxe e concordância verbal, me emocionei. Mas é que os depoimentos estavam ali, eu estava ali e a vida não tem hora para acabar, é um sopro.

(Deyvid Peres)

BRT, Teatro Ambulante


A mão que segurava a barra de metal era a mesma que havia segurado a vassoura durante todo o dia. Às costas uma gota de suor escorria, mas não era o seu. Incrível o balé que os corpos juntos faziam a cada momento, mãos fortes, braços maltrados de tanto se sustentar. Um ronco. Os afortunados dos assentos, indiferentes à dança orquestrada pelas curvas e freadas, não tinham culpa. Tinham sorte. Porém uma coisa unia a todos: o calor. Abafado, úmido e virulento. Janelas não havia. Pelo chão, receptivos, pequenos artrópodes se aproveitam dos farelos, que ninguém os vejam! É que ali se vendem alimentos. Em pé uma moça dos tempos do Chacrinha já não achava graça de ser chacrete. Os pés doíam, o braço fraquejava e a plateia já estava aconchegada. Um choro de bebê. Um espirro. Quem muda de lugar pisa no pé do outro, falta luz. No mais, cansaço, lentidão, e palhaços. 

(Deyvid Peres)

O Não-Eu


Olho os outros passarinhos por aí e penso: serei eu um passarinho mesmo? Todos que vejo, lindos, alegres, coloridos, habilidosos em capturar o alimento, e eu.... Bem, eu mal sobrevivo. Outro dia quase consegui pegar um verme num lago raso, mas meu bico ficou preso na lama. Fui salvo por uma garça que me olhava com cara de dó. Tentei comer insetos, mas confundi um delicioso gafanhoto com um louva-deus, que me deu um soco no olho. Cai humilhado no chão bem ao lado de uma árvore cheia de maritacas. Até hoje elas zombam de mim quando me veem rindo tanto que os outros pássaros até tampam os ouvidos por causa dos gritos estridentes. Resolvi então que só comeria frutas, conheci outros frugívoros, me apaixonei. Olha, as frutas eram ótimas, não reclamo, mas não era o suficiente. O namoro não durou muito, a minha melhor qualidade ali, pelo visto, era comer frutos. Hoje, apesar de ser um pouco pequeno, trabalho como "pombo-correio", preciso pegar pelo alimento que não consigo pegar sozinho, certo? Todos os dias o vasilhame é enchido por uma criatura sem penas, coberta com algodão. Às vezes ela vem diferente, em outras cores e outros formatos, mas sempre vem e me paga. Talvez os ninhos bem feitos, nas árvores mais disputadas, não sejam para mim. Talvez eu não seja um pássaro de verdade, talvez eu tenha nascido na espécie errada. Certa manhã me peguei pensando que se eu tivesse nascido uma toupeira, eu teria um par, e uma toca, e filhos. As toupeiras enxergam pouco e vivem bem. O amor certamente me acharia lá. Mas o jeito é viver aqui, e ser o melhor pássaro que eu puder ser. Por enquanto, sigo entregando cartas de amor.

(Deyvid Peres)

Palavras ao Vento



"Nenhum homem é uma ilha". A vida ainda é essa coisa infinita de interação afetiva-comportamental de ordem mútua. Impossível seria viver só para si num mundo cheio de pessoas. Vivemos por nós e vivemos com os outros. Vivemos pela empatia, pelo altruísmo, e por toda ligação terrena e não-terrena que experimentamos com todos os seres desse planeta. Viver bem, mais do que em outra era, é ter 'tato social' - aquela sensibilidade de saber o que dizer e quando dizer, e principalmente quando não dizer. E quando dito o que não deveria ter sido propagado ao ar, pedir desculpas, assumir o erro, e aprender um pouco que que seja com isso. É a evolução psicoemocional guindo-nos ao um mundo melhor. Para isso é preciso ouvir a si mesmo, é preciso uma pausa para entender o que se passa dentro de cada coração. É preciso sentir as vibrações mínimas de energia receptiva ou não às nossas ações. Não é fácil. A cada erro podemos perder amizades, amores, confiança de quem amamos. Sejamos então a tentativa de acerto, sejamos então a tentativa de amor.

(Deyvid Peres)

Ego Rosáceo


Certa feita uma rosa acordou e percebeu que lhe faltava uma pétala. Horrorizada começou a procurá-la por toda parte, mas o vento já havia levado. Chorou de tristeza, se revoltou com a vida e com tudo. Sem aquela pétala não se reconhecia, não se fazia ela mesma. Culpou-se por ter dormido e, assim, deixado que o vento lhe roubasse tão preciosa pétala. Brigou consigo mesma por não cuidar melhor de seu corpo, de sua saúde. Esbravejava contra a vida e todos que se aproximavam dela. Parou de conversar, parou de sorrir. Que dor era perder uma pétala. Numa dada manhã, resolveu mudar, seria otimista, sorriria para os insetos e pássaros que a visitariam dali por diante, seria gentil com as flores da vizinhança. Mas nenhum pássaro veio, nenhum inseto colheu seu pólen, nenhuma flor amiga havia por perto. Numa poça de chuva ao chão, olhou horrorizada a imagem que refletia. Ficou tanto tempo lamentando a perda daquela única pétala que não percebeu o tempo passar, e agora não possuía mais nenhuma.

(Deyvid Peres)