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Efeito de similaridade-atração

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Pensamentos intermináveis iam e viam, sem que Matheus conseguisse controlá-los. A chuva lá fora parecia ressonar distante, o frio da manhã de outono passara e uma cede incontrolável o tomava. Foi quando percebeu que um pouco da cinza do baseado havia caído sobre o dorso de sua mão esquerda, espanou-a com a outra mão. Um buraco tinha se formado em sua pele sem que ele sentisse. Voltou às profundezas de seus pensamentos logo que a distração passou. Pensava na sua vida cotidiana, em seus objetivos, em sua saúde. Pink Floyd sempre o ajudava a relaxar, e normalmente ele se despedia fácil dessas preocupações. Porém, nesta noite específica não parava de pensar nos amores e desamores da vida. Memórias de casos passados se entrelaçavam e se misturavam deixando-o confuso. Mas como bom cientista, depois de tanto matutar, acabou por reconhecer padrões em seus envolvimentos. Era assustadora tal análise. Resolveu, desta forma, pensar nos relacionamentos que conhecia de amigos e familiares e, perceb…

A Anciã e o Mar

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Entre a Vila de Pescadores do Mariano e a Aldeia dos Jatobás, vivia uma velha anciã. Uma senhora baixa, de pele moreno-avermelhada, nariz largo, e cabelos crespos e grisalhos. Ninguém sabia dizer o porquê, mas ela residia sozinha em uma cabana à beira da praia das Garças. Nunca a viam pela vila, ou pela feira do porto. Na verdade, existia um murmúrio de mistério sobre a sua existência que perpassava gerações. Alguns diziam que ela era uma bruxa, outros que ela nunca dormia, ou ainda que ela era um fantasma que assombrava a praia. E não era para menos, a senil anciã espantava todos os turistas que resolvessem acampar na areia. Furava barracas, ameaçava-os com suas tochas, quebrava violões, jogava seus próprios lixos espalhados pela praia dentro de seus carros. Brigava com os pescadores que quisessem furtar os ovos das tartarugas à época da desova. Certa vez, fez dois deles devolverem os ovos de cada ninho mexido.
Por sua fama xamânica, muitas vezes era procurada pelas pessoas enfermas …

Volátil

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Era de se esperar que de tempos em tempos o caminho se perdesse. Sempre fora uma dessas aberrações da natureza, indefinível e incorrigível. Era certo que seguir por uma única trilha por muito tempo não a satisfaria. Não, não, isso não era pra ela. Quem a visse empenhada em alguma coisa hoje poderia facilmente vê-la criticar tal coisa, com seus olhos de fogo e fúria, no ano seguinte. Volátil como o álcool. Inconstante como o mercado financeiro, diria seu último namorado. A vida era uma jornada que a cada fase exigia dela uma nova adaptação, e adaptações exigiam mudanças. Como as pessoas continuavam as mesmas quando essas fases chegavam afinal? A vida criada pela humanidade exigia constância, previsibilidade. Formou-se em administração, então siga a profissão. Deu entrada no pagamento de uma casa, vá até o fim. Gosta de meninos, continue assim. Está magra, não engorde. Gostava de tomates, por que raios não come isso agora? Queria casar, se não casou ainda é porque ainda quer e “ficou pra…

Relato matinal

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Percebemos o tempo passar quando tomamos consciência de pequenos detalhes que se alteram ao cotidiano, como, por exemplo, só conseguirmos acordar, produzir, e sermos úteis à vida depois de uma boa xícara de café. E olha que há pouco o meu corpo nem tolerava bem a tal cafeína, mas agora urge maiores demandas que as gástricas e os caprichos das escolhas de meu estômago. Por fora, apesar da queda de alguns poucos fios frontais lembrar a quem quiser o meu tempo aqui, sou jovem e solícito. Mas por dentro sinto as mudanças que o tempo traz, e as sequelas de uma vida na cidade grande. Café para acordar, um baseado para dormir. Parece-me que a mente anda mais devagar que o corpo. Ou o tal do relógio privilegie um em detrimento do outro. A verdade é que sinto-me a começar a vida. Sim, porque atraem-me as luzes dos bares, as músicas eletrônicas, os sorrisos brilhantes dos recém-graduados. Mas o tal do tempo me lembra de sua urgência ao passar quando as costas doem, lá pelas duas horas da matina…

Luzes e brilhos de uma vida

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Tons de laranja. Tons de azul. Explosões de cores e brilhos. Uma bailarina girava em ponta. Um palhaço acenava esguichando água da flor de seu paletó. Do escuro, todas aquelas luzes clamavam por atenção. Como uma onda de energia boa e entusiasmada, olhinhos faiscantes de alegria devolviam as luzes dos palcos. Suspiros de surpresa ecoaram quando o boi-bumbá resolveu abandonar os tablados e circundar a plateia. De todos os miúdos sentados, atentos, a mais emocionada era Laura. Laurinha era uma menina de lindos cachinhos loiros, olhos verdes, tímida. Esta era sua primeira vez assistindo a um espetáculo teatral. O sol estava vermelho, redondo. Lembrava a bandeira do Japão, ou ainda, o tapete da sala de sua avó. E Laura despertava, lá de cima do telhado, de sua lembrança de segurança. Acontecera no auditório da escolinha do fundamental, e desde então se tornou um dos mantras de meditação, de equilíbrio nos momentos difíceis. Que não foram poucos... A fase escolar passou como quem vem pra b…

Só mais uma gota

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Amanda havia tido uma noite cheia de pesadelos. Todos eles reflexos de suas preocupações. Tomar decisões era muito difícil para ela que se cobrava tanto. Enquanto se levantava ao alarme do celular, uma nuvem se formava lá no seu, a quilômetros de altura. Olhou seu rosto refletido ao espelho e viu suas olheiras de noites mal dormidas, o lavou e pôs pasta na escova de dente. Enquanto isso mais nuvens surgiam impedindo a luz solar de chegar à superfície. Durante o banho, esfregava o coro cabeludo coberto de espuma, e pensava nas complicações de sua situação. Lá fora se ouviam os cães do vizinho e os pássaros da árvore da calçada. Escolheu uma roupa qualquer, não fazia diferença, não era importante. Não se importou em se maquiar, em outras circunstâncias não sairia de casa com aquelas olheiras a amostra. Neste momento as microgotículas de vapor d’água, antes espaçadas, agora já estavam tão próximas que as nuvens, de tão negras, já haviam se tornado uma. Colocou a água e o pó para o café n…

Tardes frias

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Interessante como as tardes frias de outono são para escrever. Ou talvez sejam para preparar aquela aula de sábado de manhã, ou estudar as estatísticas de um experimento, ou organizar a lista de tarefas para a próxima semana. Dizem que somos o que fazemos no nosso tempo livre, ou o que preferimos fazer em relação às outras coisas. Pergunto-me diariamente se gostar de escrever está em desacordo com ensinar, ou pesquisar. Será que ser escritor é contrário à vontade de ser professor? Será que o fato de preferir escrever sobre um sonho, uma inspiração anotada num pedaço de papel durante uma volta no parque, ou mesmo sobre uma opinião, significa que estou no caminho errado? O que seria dos alunos se eu não tivesse aptidão para a escrita? O que seria da pesquisa se eu não tivesse aptidão para a escrita? O que seria da escrita se eu não tivesse aptidão para ser professor? O que seria da docência se eu não me questionasse, se eu não me expressasse, se eu não pesquisasse, e se eu não lesse ou …